Manqueiras em vacas de leite: Prevalência e Lesões – Parte 1 – Radar Técnico – Medicina de Produção – MilkPoint

Por Paulo Marcos Ferreira – Professor aposentado da EV UFMG; Antônio Último de Carvalho e Elias Jorge Facury Filho – Professores da disciplina Clínica de Ruminantes da EV UFMG e Marina Guimarães Ferreira – Aluna de pós-doutorado da EV UFMG

As manqueiras são distúrbios frequentes nas vacas de leite e, na maioria das vezes, são manifestações clínicas das lesões de cascos. Vale a pena destacar que a frequência destas afecções, sem manifestação de manqueira, é alta nas propriedades e, como não há sinais clínicos evidentes, passam despercebidas. Nesses casos, são consideradas como subclínicas, e devem ser diagnosticadas precocemente, evitando, assim, sua evolução e grandes perdas econômicas. Em levantamento realizado na bacia leiteira de Belo Horizonte, envolvendo sistema intensivo e semi-intensivo de produção de leite, a frequência de animais com lesões de casco foi de, aproximadamente, 90%, porém os produtores observaram apenas em torno de 7%. Possivelmente, os produtores conseguiram enxergar as vacas que mancavam como animais problemas, mas não detectaram as ocorrências subclínicas. É interessante destacar que os bovinos possuem uma natureza calma e, muitas vezes, escondem os sinais de dor, como uma estratégia de defesa contra predadores. Desta forma, a manifestação dolorosa causada por lesão nos pés não é evidente, até que os mecanismos compensadores sejam exauridos.

Estes e outros resultados mostram a alta frequência das enfermidades dos cascos em nosso meio e a necessidade de treinamento de pessoal para diagnosticar esta situação e, com base nos resultados, traçar medidas de prevenção e controle.

Neste artigo, apresentaremos as principais enfermidades dos cascos de bovinos, suas frequências, métodos de diagnóstico e tratamentos.

2- Principais afecções podais

As lesões podais dos bovinos podem ser agrupadas em infecciosas e metabólicas. As infecciosas envolvem as partes moles dos pés (pele digital), apresentando uma incidência maior em animais criados em condições precárias de higiene, umidade excessiva e acúmulo de matéria orgânica. Frequentemente, podem estar envolvidos agentes infecciosos comumente encontrados no meio ambiente. Outras vezes, ocorrem a partir da introdução de animais novos no rebanho, que trazem novos agentes, como ocorre com a Dermatite Digital.

Já as lesões de origem metabólica estão relacionadas aos processos de laminite, caracterizados pela formação de tecido córneo de baixa qualidade, a partir de alterações hemodinâmicas dentro do estojo córneo, em consequência de distúrbios circulatórios sistêmicos. Desta forma, atingem, principalmente, os tecidos queratinizados do casco, como a sola, linha branca, muralha e talão.

2.1- Lesões de origem infecciosa

Dermatite Digital

Descrita inicialmente na Itália, por Cheli e Mortelaro, em 1974, é considerada como uma das mais frequentes causas de manqueiras em rebanhos leiteiros no mundo. Sua etiologia é incerta, acreditando-se ser de origem multifatorial, associada a germes anaeróbicos, especialmente espiroquetas do gênero Treponema. Atualmente, é bastante difundida na Europa, Estados Unidos, Canadá e em diversos outros países. No Brasil, apesar da falta de dados estatísticos, a doença encontra-se amplamente distribuída.

Apresenta-se como uma afecção da pele digital, localizada na região coronariana entre os talões da superfície palmar/plantar, e menos comumente em outras localizações, como na superfície dorsal dos cascos entre as unhas, ou mesmo no espaço interdigital. Em sua fase inicial, ocorre um espessamento da pele seguida da formação de úlcera, que pode ser acompanhada de tecido proliferativo semelhante a uma verruga. A úlcera apresenta-se em forma de fenda profunda, contendo tecidos necrosados e matéria orgânica e, algumas vezes, o tecido que cresce ao redor da lesão apresenta formação de pelos. É muito dolorosa na fase aguda, levando, frequentemente, à manqueiras e à queda na produção de leite.

Os animais jovens são os mais susceptíveis, especialmente novilhas e vacas de primeira lactação, com prevalência de manqueira em 50-60% dos animais acometidos. Entretanto, pode atingir todo o rebanho simultaneamente.

O tratamento baseia-se na limpeza da lesão, retirada de tecido necrótico, aplicação tópica de antibióticos (tetraciclina, lincomicina) e bandagem. Quando as lesões são grandes, proliferativas, crônicas e persistentes, recomenda-se a retirada cirúrgica, embora as recidivas sejam frequentes. Nas situações de alta frequência, é necessário o tratamento do rebanho com antibióticos aplicados sob a forma de pulverização nos pés, após limpeza prévia, durante cinco dias. Além destas medidas, é importante o uso sistemático de pedilúvio com soluções de formol (3-5%) ou sulfato de cobre (3-5%).

dermatite digital

Dermatite Interdigital

A dermatite interdigital é um processo inflamatório que acomete a pele do espaço interdigital, sem extensão aos tecidos profundos. É causada por bactérias ambientais anaeróbicas dos gêneros Fusobacterium e Dichelobacter. Apresenta-se, inicialmente, em forma de fenda (rachadura), podendo levar ao espessamento da pele interdigital nos casos crônicos. Nos casos graves, pode haver presença de pus com odor fétido e aumento da sensibilidade, levando à manqueira. Em alguns quadros, o agravamento desta lesão pode causar um flegmão interdigital (FI), que é um processo inflamatório agudo difuso da pele interdigital, envolvendo tecidos profundos. Esta lesão é de aparecimento súbito, caracterizada por calor, aumento de volume simétrico da extremidade do membro e dor acentuada, levando à manqueira grave. A produção de toxinas a partir da infecção bacteriana é responsável pela instalação de um quadro sistêmico de toxemia e, muitas vezes, pode levar o animal à morte. A extensão da infecção do flegmão interdigital pode atingir a articulação interfalangeana distal e causar artrite séptica grave. Nos casos crônicos de dermatite interdigital, ocorre espessamento da pele, levando à hiperplasia, conhecida popularmente como gabarro.
A lesão inicial de dermatite interdigital pode ser tratada fazendo-se a assepsia da ferida com remoção de tecidos necróticos e aplicação de antissépticos locais (iodo) ou bandagens com antibióticos, como tetraciclina em pó. Nos casos de menor gravidade, o uso do pédilúvio com soluções de sulfato de cobre ou formol pode ser suficiente para o tratamento.

O flegmão interdigital exige uma terapia parenteral efetiva, por vários dias, com antibióticos e anti-inflamatórios, até que ocorra a resolução. Os resultados destes tratamentos são bons quando realizados precocemente. Nestes casos, não recomenda-se o uso de bandagens, devendo-se realizar limpezas diárias da área afetada e aplicação local de antissépticos.

Nos casos crônicos de hiperplasia interdigital (gabarro), recomenda-se a remoção cirúrgica quando ocorrem infecções secundárias, infiltração da muralha axial ou manqueira. A taxa de recidiva é grande pois, muitas vezes, está associada a conformações defeituosas das unhas, aumentando a área do espaço interdigital e predispondo-o a lesões traumáticas.

dermatite interdigital

Erosão de talão

A erosão de talão (ET) é uma perda irregular do tecido córneo, que inicia-se na forma de pequenos orifícios arredondados que podem levar à formação de fissuras profundas na região do talão e, às vezes, da sola. A coalescência destas áreas circulares de erosões, resulta na formação de áreas lineares extensas, que quando bilaterais, formam uma lesão conhecida como “V negro”.

A ocorrência desta alteração é associada à baixa qualidade dos tecidos córneos secundária à laminite e a infecções bacterianas. O principal germe isolado é o Dichelobacter nodosus, que tem uma ação importante na destruição dos tecidos córneos por produção de proteases (enzimas que quebram as proteínas). Altas densidades populacionais, associadas a ambientes úmidos e presença de grande quantidade de matéria orgânica, são considerados fatores de alto risco, por aumentarem a concentração local de patógenos.

O tratamento baseia-se no casqueamento, remoção dos tecidos necróticos e aplicação tópica de antisséptico, e pedilúvio. As lesões de baixa severidade podem ser tratadas apenas com o uso sistemático de pedilúvio e higiene ambiental.

Coronite parasitária (Tunga penetrans)

A infecção dos cascos de bovinos pela pulga Tunga penetrans é frequente, e ocorre, especialmente, durante o período seco do ano. O acúmulo de esterco nas instalações parece ser um dos fatores predisponentes. A fêmea da Tunga penetrans, após a fertilização, penetra na pele do hospedeiro, alimenta-se de sangue e realiza a postura. Os ovos caem no chão e dão origem a larvas que, em torno de 25 dias, se transformarão em insetos adultos. Nos cascos, as fêmeas localizam-se na banda coronariana, região interdigital e talões, e causam uma reação inflamatória local intensa, com prurido e dor. Nos locais onde houve o desenvolvimento do parasita, após sua saída, formam-se erosões que podem sofrer contaminação bacteriana secundária e originar defeitos na muralha.

Existem poucos trabalhos científicos relativos ao tratamento desta afecção. Recomenda-se a aplicação tópica de produtos a base de organofosforados por pincelamento, pulverização ou pedilúvio.

Esse artigo foi originalmente publicado na Revista Leite Integral, edição 72 – março 2015. Acesse e assine clicando aqui.

 

Fonte: Manqueiras em vacas de leite: Prevalência e Lesões – Parte 1 – Radar Técnico – Medicina de Produção – MilkPoint

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