O estresse térmico na fase final da gestação de uma vaca leiteira afeta o desenvolvimento do seu bezerro? – Cadeia do leite – Espaço Aberto – MilkPoint

Por Carla Cristian Campos e Inês de Freitas Gomide 

Nem é preciso afirmar que vivemos em um país em que até o inverno é quente, com algumas exceções! Se sofremos com o nosso clima quente e seco, quente e úmido e que em alguns dias, do raiar ao pôr do sol, a temperatura varia mais de 10°C, será que nossas vacas leiteiras e seus bezerros também sofrem as consequências de tamanha variação?

Na literatura especializada este sofrimento é chamado de Estresse Térmico que é definido como a dificuldade do animal em manter a sua temperatura constante quando a temperatura ambiente está muito alta ou muito baixa. De acordo com a Embrapa, o Brasil possui cerca de dois terços de seu território na faixa tropical do planeta, onde a temperatura média do ar fica acima de 20°C e a máxima acima de 30°C em grande parte do ano, dificultando a produção leiteira em nosso país. Parte dos produtores rurais vem adotando novas tecnologias com o objetivo de aumentar a produtividade, tal como o uso de vacas de alto potencial genético, porém, estas têm metabolismo elevado e produzem maior quantidade de calor corporal, tornando o estresse mais intenso. Além disso, as propriedades rurais nem sempre possuem instalações adequadas para este rebanho agravando o efeito das altas temperaturas sobre os animais e consequentemente reduzindo a produção leiteira.

Vacas leiteiras sob condições de estresse térmico apresentam diminuição da ingestão alimentar, alteração de seu metabolismo, comprometimento da lactação, aumento da incidência de doenças e redução do desempenho reprodutivo. Este estresse é visível também no final da gestação e impacta na próxima lactação como foi observado em experimento realizado na Flórida (EUA) onde vacas expostas ao estresse térmico durante o período seco tiveram redução da produção de leite na lactação seguinte (do Amaral et al., 2009).

Estes efeitos foram demonstrados em outro estudo também realizado na Flórida, EUA durante o ano de 2010. Para tanto os pesquisadores dividiram um lote de 34 de vacas leiteiras, em dois grupos, durante o período seco que foi iniciado 45 dias antes da data prevista do parto. Um grupo foi alojado em um “free-stall” equipado com aspersores e ventiladores e o outro em “free-stall” sem estes equipamentos, ou seja, mantido sob estresse térmico. Após o parto os bezerros foram separados das mães, receberam quatro litros de colostro nas primeiras duas horas após o nascimento e após o primeiro dia de vida foram alimentados com leite pasteurizado. 

Os resultados comprovaram que o estresse térmico sobre as mães no final da gestação afetou algumas características pesquisadas. As fêmeas sob estresse térmico consumiram menos alimento, ganharam menos peso durante o período seco e produziram menos leite nos primeiros 42 dias pós-parto em comparação com as vacas mantidas em ambiente climatizado. Outro fator importante observado neste estudo foi a duração da gestação, as vacas sob estresse térmico tiveram uma gestação 4 dias menor em relação ao grupo sem estresse térmico. Todas estas alterações refletem na menor produção de leite uma vez que estas vacas tem um menor tempo para descanso e pior desenvolvimento da glândula mamária, o que afeta o restabelecimento das condições ideais para a próxima lactação.

Se o estresse térmico altera o desempenho das vacas leiteiras no período seco (final da gestação) e impacta sobre a lactação seguinte, o que dizer do efeito sobre os bezerros?

Os três últimos meses da gestação representam o período mais crítico para o desenvolvimento do bezerro, pois é nesta fase que ocorre cerca de 60% do ganho de peso do feto. Por exemplo, um bezerro de vaca holandesa ganha em torno de 0,5 kg/dia de peso vivo na última semana gestacional, quando sua mãe está saudável. Se ao contrário a vaca mantida sob estresse térmico tem um período de gestação 4 dias mais curto, observaremos uma perda em torno de 2 kg a menos no peso ao nascimento do bezerro. Caro leitor, temos de informá-lo que o estudo que aqui apresentamos confirma esta informação! Os bezerros provenientes das vacas sob estresse térmico apresentaram peso ao nascimento 6 kg menor em comparação aos nascidos de mães em conforto térmico (36,5 kg Vs. 42,5 kg). Vacas sob estresse térmico sofrem modificações no consumo alimentar e na distribuição de energia e nutrientes para manter suas funções, ou seja, sob este estresse, estes animais vão priorizar a regulação de sua temperatura corporal ao invés de manter o bom crescimento de seus bezerros.

Os bezerros utilizados neste estudo foram desmamados aos 60 dias de vida e o cenário visto anteriormente piorou, pois a diferença de peso entre os grupos se manteve e ainda aumentou. O peso vivo dos bezerros do grupo de mães sem conforto térmico foi em média de 65,9 kg, enquanto que os bezerros do grupo de mães com conforto térmico foi de 78,5 kg, demonstrando que os efeitos prejudiciais do estresse térmico sobre as mães impactaram negativamente no desempenho de suas crias de modo duradouro. Neste trabalho os pesquisadores observaram que a absorção do colostro pelos bezerros nascidos do grupo sob estresse térmico foi inferior aos nascidos do outro grupo de vacas. Além disso, devemos lembrar que uma das principais práticas de manejo de bezerros adotadas momentos após o nascimento é a ingestão do colostro, importante para hidratação, nutrição e proteção e assim, garantir o bom desenvolvimento dos bezerros na fase cria.

Se pensarmos no manejo de vaca seca adotado em nosso país pela maioria das propriedades leiteiras,é possível verificar o descuido com esta categoria, que impacta tanto na produção leiteira a curto prazo quanto na reposição de matrizes a longo prazo. Portanto, além das práticas relacionadas aos manejos de secagem, nutrição e sanitário, gostaríamos de ressaltar a importância do ambiente térmico como um fator que deve ser monitorado na tentativa de minimizar seus efeitos. Se vivemos em um país que sofre com as altas temperaturas, as condições ambientais são um desafio à produção de leite e à boa criação de nossos animais. Não podemos controlar o clima, mas podemos amenizar seus efeitos com o conhecimento das ferramentas disponíveis para proporcionar ambiente confortável em busca do bem estar animal aliado à alta produtividade.

Caro leitor, se você gostou deste assunto e tem curiosidade em aprofundar seus conhecimentos sobre o efeito do ambiente térmico na produção leiteira, sugerimos o acesso à apostila da Embrapa número 188 que tem como título “Bioclimatologia aplicada à produção de bovinos leiteiros nos trópicos”, disponível na internet.

Referências:

Azevedo, D.M.M.R.; Alves, A.A.Bioclimatologia aplicada à produção de bovinos leiteiros nos trópicos. Documento 188/Teresina: Embrapa Meio-Norte, 21ª ed.; 83 p., 2009.

do Amaral, B. C., E. E. Connor, S. Tao, M. J. Hayen, J. W. Bubolz, and G. E. Dahl. Heat-stress abatement during the dry period: Does cooling improve transition into lactation?Journal of Dairy Science, v. 92, p.5988–5999, 2009.

Tao, S.; Monteiro, A.P.A; Thompson, I.M.; Hayen, M.J. & Dahl, G.E. Effect of late-gestation maternal heat stress on growth and immmune function of dairy calves.Journal of Dairy Science, v. 95, p. 7128-7136, 2012.

 

O estresse térmico na fase final da gestação de uma vaca leiteira afeta o desenvolvimento do seu bezerro? – Cadeia do leite – Espaço Aberto – MilkPoint.

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