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GENÉTICA & JORNALISTAS

 

Das ervilhas de Mendel às sementes suicidas

 

Por Felipe A. P. L. Costa em 29/10/2013 na edição 770

 

 

 

1. Padrões reprodutivos

Todos os seres vivos – incluindo, claro, os seres humanos – são gerados por meio de algum processo reprodutivo. É graças à reprodução que novos indivíduos surgem a partir de indivíduos pré-existentes. Estabelece-se, assim, um elo entre sucessivas gerações: indivíduos de uma geração pré-estabelecida, dita parental, dão origem a novos indivíduos, alguns dos quais formarão a geração filial. Esta última, por sua vez, poderá ter seus próprios descendentes.

Existem dois tipos básicos de reprodução, sexuada e assexuada. A diferença fundamental entre elas tem a ver com a participação de gametas. Quando não há participação de gametas, a reprodução é dita assexuada; quando há, a reprodução é dita sexuada. Na maioria das espécies que se reproduzem sexuadamente, há dois tipos de gametas: um pequeno e móvel e outro, grande e imóvel. O primeiro é chamado de gameta masculino (espermatozoide ou célula espermática), enquanto o último é chamado de gameta feminino (óvulo ou oosfera). O indivíduo que produz os gametas masculinos é chamado de macho, enquanto o que produz os gametas femininos é chamado de fêmea (ver, neste Observatório, “Nem todo macho é homem, nem toda fêmea é mulher“).

Nas espécies de sexos separados, a reprodução sexuada impõe um desafio: os gametas masculinos e femininos precisam se encontrar. Um encontro bem-sucedido resulta em fecundação, processo por meio do qual os dois gametas se fundem, dando origem a um zigoto (ou célula-ovo). Os núcleos dos gametas também se fundem, de modo que o material genético do zigoto é o resultado da soma do material genético de origem paterna com o de origem materna. Um zigoto bem-sucedido se desenvolve em embrião e este em um novo indivíduo. No caso das plantas floríferas, por exemplo, o embrião se desenvolvem no interior da semente; no caso dos animais, o embrião costuma se desenvolver dentro de um ovo ou, no caso particular dos mamíferos, no interior da placenta.

2. Divisão celular

Como será que uma única célula-ovo dá origem a um recém-nascido formado de alguns trilhões de células? Esta pergunta pode ser respondida de diversos modos, mas vamos aqui nos restringir ao seguinte aspecto: podemos simplesmente dizer que a população de células aumenta numericamente. Como isso acontece? Por meio de um processo multiplicativo chamado divisão celular. A célula-ovo inicial se divide em duas, as duas se dividem em quatro, as quatro em oito, as oito em dezesseis e assim por diante, de sorte que um único zigoto pode dar origem, em um período de tempo relativamente curto, a uma numerosa e densa população de células. (A rigor, nem todas as células embrionárias continuam se dividindo, apenas alguns subconjuntos.)

Entre os organismos unicelulares, a divisão celular serve basicamente para fins de propagação. No caso de animais, plantas e outros organismos multicelulares, no entanto, esse processo serve ora para fins de crescimento vegetativo (aumento no tamanho do corpo, restauração de partes perdidas etc.), ora para fins reprodutivos. Em cada caso, porém, há um tipo especial de divisão: a mitose, para fins de crescimento, e a meiose, para fins reprodutivos.

** Mitose. Para que uma célula-mãe consiga dar origem a duas células-filhas, mais ou menos idênticas entre si, a célula original precisa fazer duas coisas: primeiro, duplicar o número de componentes a serem repartidos; e, segundo, repartir os componentes de modo equitativo. Uma repartição precisa e meticulosa é particularmente importante no caso dos cromossomos (ver adiante), caso contrário, as células-filhas terão chances reduzidas de sobrevivência. (As razões para isso não serão exploradas neste artigo, mas caberia dizer o seguinte: cromossomos a mais ou a menos podem ser fatais para a célula.)

** Meiose. É um tipo de divisão celular por meio da qual uma célula-mãe dá origem a quatro células-filhas, cada uma delas com metade do seu número de cromossomos. No caso dos seres humanos, por exemplo, cujas células somáticas (i.e., as que formam os diversos tecidos e órgãos do corpo, em contraste apenas às células reprodutoras) possuem 46 cromossomos, a produção de gametas por mitose implicaria em uma sucessão de gerações com os seguintes números de cromossomos: 46, 92, 184, 368, 736 e assim por diante. Em algumas gerações, não haveria espaço suficiente dentro das células sequer para abrigar essas estruturas. A meiose representa uma “solução” para esse tipo de problema. Por meio da meiose, no caso da espécie humana, as células precursoras (cada uma delas com 46 cromossomos) dão origem a gametas (espermatozoides ou óvulos) com 23 cromossomos. Quando ocorre a fecundação, o número total é restaurado: 23 (espermatozoide) + 23 (óvulo) = 46 cromossomos.

3. Os cromossomos

Por que os cromossomos são tão importantes? Em poucas palavras, a resposta seria a seguinte: porque são eles que abrigam o material genético das células. (Estamos aqui nos referindo ao genoma nuclear das células eucarióticas, mas não custa lembrar: as células procarióticas – bactéria e arqueias – possuem um cromossomo circular imerso no citoplasma.)

O cromossomo de uma célula eucariótica é uma estrutura tridimensional fortemente enovelada, cuja composição química inclui um ácido nucléico (ácido desoxirribonucleico, comumente referido como ADN ou DNA, na sigla em inglês) e um tipo particular de proteína (histonas). O componente funcional é o DNA; as proteínas ajudam na manutenção estrutural. Cada cromossomo é, a rigor, uma molécula única de DNA, dobrada e redobrada sobre si mesma mais de uma vez; ao longo dessa longa cadeia, não existem pontas soltas nem ramificações.

Cromossomos são estruturas celulares e, nesse sentido, podem ser isolados, corados e visualizados ao microscópio. Não devem ser confundidos com o genoma. Cada cromossomo é formado por uma longa sequência de nucleotídeos (a unidade estrutural que forma os ácidos nucléicos) e é a essa sequência (comumente representada na forma 5’-AATCCAGATTCA…-3’) que damos o nome de genoma. Podemos nos referir ao genoma de um cromossomo, de uma célula inteira (i.e., levando em conta os demais cromossomos da célula) ou de um organismo como um todo (i.e., levando em conta os diversos tipos de células que formam o corpo do indivíduo).

4. Genes e alelos

Nem todos os trechos do genoma funcionam – i.e., nem todos os segmentos da longa cadeia de DNA se expressam. No âmbito deste artigo, vamos definir um gene como um segmento da molécula de DNA que é capaz de se expressar, determinando assim a síntese de elementos vitais (enzimas e outros tipos de proteínas) ou afetando o comportamento de outros componentes da célula, incluindo outros genes. Cada gene costuma ocupar uma posição específica (lócus) em um determinado cromossomo.

Os genes podem ser invariantes ou podem ser constituídos de duas ou mais formas variantes, chamadas de alelomorfos ou simplesmente alelos. Os alelos de um gene são formados por trechos de DNA ligeiramente diferentes, o que muitas vezes (mas nem sempre) implica em produtos diferentes. As variantes alélicas de um gene que ocupam um mesmo lócus costumam ser representadas como genótipos. (Os genótipos são geralmente representados por duas ou mais letras, ou símbolos equivalentes, cada uma indicando um alelo. Quando há dominância entre os alelos [ver adiante], o dominante é representado por uma letra maiúscula, enquanto o recessivo por uma letra minúscula.) A princípio, não há limite para o número de alelos de um gene; na prática, contudo, esse número não costuma ser muito grande.

O que os pais transmitem aos seus filhos é o genoma. No caso da espécie humana, essa herança normalmente está materializada na forma de 23 pares de cromossomos ou, mais precisamente, 22 pares de autossomos e um par de cromossomos sexuais. São assim chamados aqueles cromossomos cuja presença determina (entre outras coisas) a manifestação de caracteres sexuais primários. Na espécie humana, o sistema de determinação do sexo é do tipo XY: indivíduos do sexo feminino têm 22 pares de autossomos mais um par XX, enquanto os do sexo masculino têm 22 pares de autossomos mais um par XY. Em razão da diferença no par de cromossomos sexuais, estes últimos são chamados de heterogaméticos (i.e., espermatozoides transportam X ou Y), enquanto os primeiros são chamados de homogaméticos (i.e., óvulos sempre transportam X).

5. Alelos dominantes e recessivos

Um gameta humano normal possui uma única cópia de cada um dos 23 pares de cromossomos presentes nas células somáticas do nosso corpo. Essa condição dos gametas é chamada de haploidia, enquanto a condição das células somáticas é chamada de diploidia – as células são ditas haploides e diploides, respectivamente. As células haploides, portanto, possuem uma única cópia de cada cromossomo (e, portanto, de cada gene), enquanto as diploides possuem duas cópias.

Um organismo diploide é dito homozigoto quando as duas cópias que ele possui de determinado gene são iguais – e.g., os genótipos AA e aa são ditos homozigotos. Todos os gametas produzidos por um homozigoto transportam o mesmo alelo (A, no caso do genótipo AA; a, no caso de aa). Um organismo é dito heterozigoto quando os dois alelos que ele possui de determinado gene são desiguais – e.g., Aa é dito heterozigoto. Metade dos gametas produzidos por um heterozigoto transporta um alelo (A), metade transporta o outro (a).

Os alelos que só se expressam na condição homozigota são chamados de recessivos; os que se expressam em qualquer condição (homo ou heterozigota) são chamados de dominantes. (Não vamos entrar nesse assunto, mas a evolução da dominância – i.e., por que alguns alelos são recessivos, enquanto outros são dominantes – é por si só uma questão fascinante.) Em termos moleculares, o que acontece é que o alelo dominante é funcional em qualquer situação (AA e Aa), ao mesmo tempo em que a sua manifestação inibe a manifestação do recessivo. Este último só se expressa em dupla dose (aa) – i.e., na ausência do dominante.

Em alguns casos, os dois alelos se manifestam simultaneamente. Diz-se então que ambos são codominantes. Sistemas com mais de dois alelos podem exibir diversas combinações de relações de dominância entre os alelos. Há casos de uma hierarquia linear, do tipo: o alelo 1 é dominante sobre o 2 que é dominante sobre o 3, o qual, por sua vez, é dominante sobre o 4. Mas há também casos mais complexos, envolvendo codominância. Por exemplo, os alelos 1 e 2 são codominantes entre si, mas ambos são dominantes sobre o alelo 3, o qual é dominante sobre o 4.

A condição de célula haploide é representada por n, enquanto a de célula diploide é representada por 2n. Em organismos diploides, o valor de n indica o número de cromossomos presentes no gameta. Não há propriamente um limite mínimo ou máximo para esse valor, o qual tende de acordo com a espécie. Uma espécie pode ter n = 1, enquanto outra tem n = 250. Em alguns casos, erros ou processos anormais geram células triploides (3n), tetraploides (4n) e assim por diante. No caso de animais, essas células poliploides em geral não sobrevivem, mas entre os vegetais o fenômeno é bastante frequente e importante. Um caso famoso é o do trigo comum, Triticum aestivum, uma planta hexaploide (2n = 6x = 42). (A notação auxiliar, 6x, alude a um múltiplo do menor número haploide de uma determinada série de híbridos, no caso x = 7.) Os cultivares do trigo comum usados atualmente surgiram da hibridização entre outras duas gramíneas, Triticum turgidium (uma planta tetraploide, 2n = 4x = 28, ela própria resultado de hibridização entre outras duas espécies de Triticum) e Aegilops tauschii (uma planta diploide, 2n = 2x = 14) (para detalhes técnicos e referências, ver JIA et al. 2013).

6. Os primórdios da genética

A hereditariedade – processo por meio do qual a prole manifesta caracteres herdados da geração parental – é uma preocupação antiga dos seres humanos, recuando ao menos até a época em que os nossos ancestrais começaram a domesticar plantas e animais. A disciplina biológica que lida com o estudo da hereditariedade é a genética (do grego genetikós, “capaz de procriar” ou “capaz de reproduzir”), um dos raros campos de estudo que teve um início mais ou menos bem-definido: 1900.

Naquele ano, três botânicos – o alemão Carl Correns (1864-1933), o neerlandês Hugo de Vries (1848-1935) e o austríaco Erich von Tschermak (1871-1962) – redescobriram de modo independente um artigo, agora clássico, do monge, matemático e naturalista tcheco Gregor Mendel (1822-1884). (Vale notar que, naquela época, a cidade natal do naturalista pertencia ao Império Austríaco.) Em seu artigo, publicado em 1865, Mendel apresentava e discutia os resultados que obteve em uma série de cruzamentos envolvendo linhagens de ervilhas (leguminosas do gênero Pisum).

É difícil imaginar um leitor que tenha passado pela escola sem ter ao menos ouvido falar desse experimento. Mas por que ele usou ervilhas? As razões foram essencialmente metodológicas, como lemos no comentário a seguir (JACOB 1983, p. 209; grafia original):

“Mendel dá uma nova atenção à escolha do material a ser utilizado. Testa várias plantas antes de fixar-se na ervilha. Dirige-se então a variedades cuja pureza é garantida por muitos anos de cultura em condições rigorosas. As variedades destinadas à hibridação devem diferir entre si não por um conjunto, mas por um número limitado de traços. É preciso descartar os caracteres que ‘não permitem uma separação nítida e segura, diz Mendel, pois a diferença é então da natureza de ‘mais ou menos’, o que freqüentemente dificulta a definição’. Portanto, só se devem reter os traços em que a discriminação possa se estabelecer sem ambigüidade, como a forma ou a cor dos grãos e da vagem, a repartição das flores ao redor do caule, etc. Para evitar uma complexidade de antemão insuperável na análise de hibridações, é importante negligenciar os detalhes e limitar-se ao estudo de um número muito pequeno de caracteres: primeiro um, depois dois, depois três, tendo o cuidado, em cada caso, de distinguir todas as combinações possíveis na descendência. Para esgotar as combinações, devem-se respeitar duas condições: por um lado, realizar as experiências em uma escala suficientemente ampla que permita ignorar os indivíduos e só se ocupar de populações; por outro, seguir o comportamento dos caracteres não somente entre os filhos de um casal, mas através de uma longa série de gerações sucessivas.”

Cabe registrar, no entanto, que ele inicialmente pensou em usar animais, tendo sido dissuadido a abandonar essa ideia por colegas de mosteiro (sobre a vida e obra de Mendel, ver HENIG 2001).

7. Os experimentos de Mendel

Mendel iniciou suas pesquisas selecionando pares de classes fenotípicas de ocorrência já conhecida. Obteve assim linhagens “puras” (i.e., homozigotas) para sete pares de classes fenotípicas. Eis um comentário a respeito dessa questão (CROW 1978, p. 2):

Quando ele cruzou plantas altas com baixas, todos os híbridos eram altos (independentemente do tipo usado como macho ou fêmea, confirmando-se assim as observações de pesquisadores anteriores). Então ele permitiu que os híbridos [note que o termo é usado aqui em alusão aos descendentes de um cruzamento entre indivíduos que pertencem a linhagens homozigóticas distintas] assim formados se autopolinizassem e observou a geração seguinte. Ele encontrou 787 plantas altas e 277 baixas, aproximadamente na proporção 3:1.

A análise dos resultados levou à formulação de uma hipótese inicial. Como um modo de testá-la, ele então conduziu uma nova série de cruzamentos. Por exemplo, para testar a ideia de que dois “fatores alternativos” (i.e., dois alelos) estavam envolvidos nas diferentes manifestações de determinadas classes fenotípicas, como a cor da vagem ou a textura da semente, ele efetuou vários retrocruzamentos, cruzando ervilhas da primeira geração filial com ervilhas da geração parental. Nesses cruzamentos, procura-se observar se as proporções esperadas (com base em determinado modelo teórico) estão ou não de acordo com as proporções observadas. Se as proporções concordam, não temos como rejeitar a hipótese inicial; caso contrário, devemos recusá-la, indo então em busca de uma nova hipótese explicativa.

8. As “leis” da genética mendeliana

Em seus primeiros experimentos, Mendel estava preocupado em descobrir o que havia por trás da variação observada em um único caráter – e.g., cor ou textura da vagem, cor ou textura da semente, altura da planta etc. Os cruzamentos que visam examinar o comportamento de um único caráter de cada vez são referidos como monoibridismo – mono, por envolverem apenas um caráter; hibridismo, por envolvem o cruzamento entre linhagens puras para diferentes classes fenotípicas de um mesmo caráter.

Todos os referidos pares de classes fenotípicas observados em ervilhas foram estudados inicialmente por Mendel como casos de mono-hibridismo. Assim, levando em conta a cor das sementes, ele efetuou cruzamentos entre linhagens puras (homozigotas) de ervilhas amarelas e verdes e assim por diante (ervilhas rugosas x ervilhas lisa, plantas altas x plantas baixas etc.). Com base nos resultados desses cruzamentos, ele formulou a seguinte generalização (referida hoje como a primeira lei de Mendel ou lei da segregação): os membros de um par de fatores (i.e., os alelos de um gene) segregam-se durante a formação dos gametas, de modo que metade dos gametas transporta um membro do par e a outra metade, o outro membro.

Mais adiante, ele passou a se preocupar também com o que acontecia quando eram examinadas ao mesmo tempo duas características (di-hibridismo). Por exemplo, em vez de cruzar ervilhas de sementes amarelas com ervilhas de sementes verdes, não importando a textura das sementes, ele passou a cruzar ervilhas amarelas e lisas com ervilhas verdes e rugosas, além de todas as outras combinações possíveis (amarelas e lisas x amarelas e rugosas, amarelas e lisas x verdes e lisas etc.). A partir dos resultados obtidos para esse novo conjunto de cruzamentos, ele formulou uma segunda generalização (referida hoje como a segunda lei de Mendel ou lei da independência): durante a formação dos gametas, os fatores que determinam um caráter se segregam independentemente dos fatores que determinam outros caracteres.

9. Casos mais complexos

Uma das razões do sucesso do trabalho de Mendel foi o fato de ele ter deliberadamente escolhido casos de herança genética relativamente simples. A rigor, a base genética dos caracteres (e as respectivas classes fenotípicas) escolhidos por ele é constituída por um único gene, cada um dos quais tem apenas dois alelos. Não é possível imaginar uma base genética mais simples para um caráter sujeito a variação. Claro que esse tipo de relação simples entre genótipo e fenótipo não se restringe às ervilhas. Muitos outros casos têm sido identificados, em diversos outros grupos de seres vivos, incluindo os seres humanos. Alguns exemplos famosos envolvem características encontradas em seres humanas, como os sistemas sanguíneos MN e Rh. Em linhas gerais, o sistema MN envolve dois alelos (LM, LN) e, como eles são codominantes, cada genótipo corresponde a uma classe fenotípica. Assim, o genótipo LMLM determina o fenótipo “sangue do tipo M”; o genótipo LNLN, o fenótipo “sangue N”; e o genótipoLMLN, o fenótipo “sangue MN”.

É importante ressaltar, no entanto, que os casos mais simples de herança (em geral rotulados de “herança mendeliana”), envolvendo um único gene com apenas dois alelos, estão mais para exceção do que para regra. Há diversas razões para isso, três das quais merecem registro: 1) muitos genes possuem mais do que apenas dois alelos; 2) muitos caracteres são determinados por mais de um gene; e 3) a base genética de certos caracteres varia de acordo com o sexo.

** Alelos múltiplos. Quando a base genética de um caráter fenotípico envolve um gene que possui mais de dois alelos, falamos em alelos múltiplos ou polialelia. Embora o genótipo de cada indivíduo continue sendo formado por no máximo dois alelos diferentes, outros indivíduos da mesma população podem transportar alelos adicionais. Um exemplo bem conhecido é a herança em seres humanos do tipo sanguíneo do sistema ABO. Existem quatro classes fenotípicas (i.e., quatro grupos sanguíneos), cada uma sendo determinada por uma ou duas combinações envolvendo três alelos (IA, IB, i). Os alelos IA e IB determinam a presença de duas formas diferentes de uma proteína de defesa na superfície das hemácias; o alelo i falha e não determina qualquer proteína. Os dois primeiros são codominantes entre si e ambos são dominantes sobre este último. Temos assim a seguinte correspondência genótipo/fenótipo: o genótipo ii determina o fenótipo “sangue do tipo O”; os genótipos IAIA e IAi, determinam o fenótipo “sangue A”; os genótipos IBIB e ii, o fenótipo “sangue B”; e o genótipoIAIB, o fenótipo “sangue AB”. Vale registrar que essas quatro classes fenotípicas diferem entre si em função de elementos presentes nas hemácias e também no plasma sanguíneo.

** Herança quantitativa. Os casos mencionados até aqui envolvem alelos de um mesmo gene. Na chamada herança quantitativa, nós nos deparamos com uma situação mais complexa: um caráter fenotípico é determinado pelas múltiplas combinações envolvendo os alelos de mais de gene. Um exemplo familiar de herança quantitativa envolve a determinação da cor da pele. Outro exemplo é a determinação da altura, embora nesse caso a influência das circunstâncias ambientais (e.g., alimentação) seja bastante significativa.

** Herança ligada ao sexo. Como foi dito antes, o sistema de determinação do sexo em seres humanos é do tipo XY: indivíduos do sexo masculino normalmente são 22 A + XY, enquanto os do sexo feminino são 22 A + XX, onde A indica pares de cromossomos autossômicos. Contrastando com os demais pares de cromossomos, o par XY é bastante desigual. O cromossomo X é visivelmente maior que o Y. Este último, a rigor, carrega umas poucas dezenas de genes, relacionados principalmente com características sexuais masculinas. O cromossomo X, por sua vez, carrega algumas centenas de genes que não estão presentes em Y. O resultado dessa assimetria é que a herança dos genes presentes no cromossomo X foge aos padrões da herança mendeliana.

10. Coda

A genética segue sendo uma fonte aparentemente inesgotável de pautas jornalísticas. Em 2013, por exemplo, comemoramos os 60 anos desde a publicação do primeiro modelo para molécula de ácido desoxirribonucleico, um feito que marcou o surgimento da chamada genética molecular (ver WATSON et al. 2006); o ano marca ainda os 10 anos da conclusão oficial do chamado Projeto Genoma Humano (ver entrada “Human Genome Project“, na Wikipedia).

Temas e assuntos direta ou indiretamente relacionados com a genética estão entre as pautas científicas mais habitualmente exploradas pela mídia. Infelizmente, porém, esse assanhamento nem sempre implica em rigor e precisão, seja na apuração das notícias, seja na hora de redigir as matérias. Os problemas incluem desde barbeiragens grosseiras, como aconteceu no histórico caso do “boimate” (ver “O Caso Boimate revisitado: anatomia de uma barriga“), até os numerosos erros e mal-entendidos conceituais que proliferam quase que cotidianamente – e.g., o uso inadequado de expressões como “carga genética”, “código genético”, “mutações aleatórias” etc. (para detalhes e referências, ver, neste Observatório, “Engarrafamento em via dupla“).

Essa aparente displicência – fruto, segundo alguns colegas, do chamado “jornalismo industrial” – pode ter consequências práticas danosas. Uma das mais óbvias é que a falta de rigor e clareza torna tudo “muito difícil e complexo”, afastando o leitor do centro das discussões. Veja, por exemplo, o que vem acontecendo nas últimas semanas por conta da tramitação no Congresso de um projeto de lei (PL 268/2007; ver aqui), cuja aprovação facilitaria o uso das chamadas “sementes suicidas” (ver matéria “Votação na Câmara sobre sementes estéreis é adiada“, de Evandro Éboli, publicado em O Globo, em 16/10). Para mim, o assunto nada tem de polêmico, ao menos do ponto de vista científico (COSTA 2009):

“A tecnologia das sementes suicidas, ou tecnologia terminator, tem sido utilizada em combinação com a produção de plantas transgênicas. Tais sementes, que podem ser estocadas, processadas e eventualmente consumidas, dão origem a plantas que só produzirão sementes inférteis. Com essa tecnologia, uma empresa produtora de milho transgênico passa a produzir milho transgênico suicida. O que isso significa? Significa que as sementes comercializadas pela empresa germinam e produzem milho, mas suas espigas contêm exclusivamente grãos incapazes de germinar.

Para as empresas envolvidas com o desenvolvimento e produção de sementes suicidas, a tecnologia terminator seria apenas um ‘sistema de proteção de tecnologia’, isto é, um ‘selo de segurança’ que elas estariam agregando aos seus produtos. Deixando os eufemismos de lado, cabe notar que, em um mundo dominado por essa tecnologia, os agricultores não mais semearão a próxima safra usando para isso uma parcela dos grãos colhidos na safra anterior, como se pode fazer hoje. Ao contrário, sempre que um agricultor (ou qualquer outra pessoa) quiser semear alguma coisa, terá de comprar ‘sementes certificadas’ em algum revendedor autorizado, talvez sob risco de ser processado por ter uma lavoura ‘clandestina’.

Existe hoje uma moratória mundial contra o uso de sementes suicidas, em especial as de espécies vegetais empregadas na alimentação humana. As grandes companhias produtoras de sementes transgênicas, porém, já deram sinais de que poderiam ‘flexibilizar’ esse seu compromisso. Muitos observadores temem que a pressão a favor da liberação do uso de sementes suicidas aumente, principalmente porque as empresas gigantes que controlam a produção mundial de sementes estão buscando dominar essa tecnologia ou adquirindo empresas especializadas nela, como fez a norte-americana Monsanto em 2006, quando adquiriu a Delta & Pine, produtora de sementes de algodão e soja. Nesse caso, portanto, parece que o mais indicado seria substituir a moratória por um completo banimento…”

Trata-se de um problema essencialmente político, tendo em um dos lados do ringue os gigantes da industrial mundial de alimentos (e.g., Monsanto). Se o objetivo é de fato informar o leitor, a imprensa deveria publicar matérias mais esclarecedoras a respeito das questões que aborda. Isso vale para qualquer editoria, incluindo, claro, a de Ciência.

No caso das sementes suicidas (e não “sementes estéreis”, como alguns veículos erradamente andaram dizendo), caberia esclarecer duas coisas: do que se trata exatamente e por que algumas empresas defendem tanto o seu uso? Para isso, não basta simplesmente dizer que “isso visa combater a fome no mundo”, um bordão puído que os testas-de-ferro das indústrias de alimento ainda usam sem qualquer pudor.

Referências citadas

** COSTA, F. A. P. L. 2009. “Banimento para as ‘sementes suicidas’”. Ciência Hoje 259: 9.

** CROW, J. F. 1978. Fundamentos de genética. Rio de Janeiro, LTC.

** HENIG, Robin M. 2001. O monge no jardim. Rio de Janeiro, Rocco.

** JACOB, F. 1983. A lógica da vida. São Paulo, Graal.

** JIA, J. & outros 47 coautores. 2013. “Aegilops tauschii draft genome sequence reveals a gene repertoire for wheat adaptation”. Nature 496: 91-95.

** WATSON, J. D. & outros 5 coautores. 2006. Biologia molecular do gene, 5ª edição. Porto Alegre, Artmed.

***

Felipe A. P. L. Costa é biólogo e escritor; autor, entre outros, de Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003)

 

 

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