Leite: excesso de importação do Uruguai gera crise no campo

As excessivas, maciças e desnecessárias importações de leite do Uruguai estão estraçalhando com a cadeia produtiva brasileira de lácteos. A afirmação é do vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc), Nelton Rogério de Souza, depois de participar de encontro, nesta semana, em Belo Horizonte que reuniu os cinco maiores produtores – Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina – responsáveis por 68% da produção nacional.


“Essa é uma das mais graves crises enfrentadas pelo setor”, expõe Nelton, mostrando que, em plena entressafra, os preços ao produtor caíram 6% em julho em relação a junho, enquanto os produtos lácteos no varejo subiram no mesmo período. O principal efeito dessa crise será o recuo da produção leiteira e o sucateamento dos laticínios e propriedades rurais, pois os produtores estão comercializando o leite abaixo dos custos de produção.
“Algo está errado quando os preços pagos aos produtores rurais, no campo, continuam caindo e o preço dos produtos lácteos – em especial queijos e leite em pó –crescem 1,5% e 1%, respectivamente, nos três últimos meses, de acordo com o INPC”, observa. O único produto lácteo que apresenta queda nos preços no varejo é o leite longa vida, que representa apenas 30% do mercado.
A crise do setor leiteiro decorre das importações predatórias de lácteos. Foram revogadas as licenças de importações não automáticas do Uruguai, facilitando a entrada de produtos no Brasil. Também cresceram as compras de soro de leite: somente no mês de julho, entraram no país 4,5 mil toneladas, volume 86% superior à média do ano passado.

Aproveitando um amplo mercado de quase 200 milhões de consumidores, o Uruguai está despejando sua boa safra de lácteos, principalmente o leite em pó, no mercado brasileiro. Contando com a revogação de medidas restritivas do comércio internacional, como as licenças de importação não-automáticas e a ausência de cotas, de janeiro a julho deste ano, o Uruguai exportou para o Brasil 18,8 mil toneladas de produtos lácteos. O percentual representa 30% do volume total de lácteos importado pelo país no período.
As importações têm subido de maneira acelerada: foram de US$ 152,7 milhões em 2007 para US$ 213,1 milhões em 2008; US$ 264,8 milhões no ano passado e US$ 175,1 milhões apenas no primeiro semestre deste ano.
Cerca de 60% do leite em pó e soro uruguaio desembarcam no porto de Vitória e são consumidos pela indústria de alimentos. Já o produto UHT (longa vida) e também os queijos uruguaios têm como principal alvo o Sul do país, devido à logística facilitada. O longa vida da Cooperativa Conaprole, de Montevidéu, é encontrado com facilidade pelo consumidor dos estados do Sul.

MAU ACORDO


A liberação do mercado brasileiro de lácteos ao Uruguai faz parte de um acordo firmado no início do ano entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e José Mujica. O Uruguai se comprometeu a retirar as restrições sanitárias impostas à carne de frango brasileira em troca da livre exportação de lácteos ao Brasil. Ao contrário do presidente do Brasil, o representante do país vizinho, para preservar o mercado local, estabeleceu cotas de participação para o ingresso da carne de frango brasileira no Uruguai. Os lácteos uruguaios, porém, têm acesso livre ao Brasil.
“Desde o ano passado, sofremos fortemente com a concorrência uruguaia. Os preços já caíram 9% desde junho, e a tendência é de mais 2% em agosto”, lembra o vice-presidente da Faesc. O dirigente mostra que o Brasil é autossuficiente na produção de soro e essas importações só desorganizam o mercado e prejudicam o produtor nacional. A Faesc e a CNA solicitaram ao Ministério da Agricultura o rastreamento do produto importado para descobrir se há fraude.
Por conta dessas anomalias, o saldo da balança comercial de lácteos é francamente desfavorável ao Brasil. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o Brasil exportou US$ 13,4 milhões e importou US$ 28,7 milhões no último mês. No acumulado do ano, o déficit é de US$ 85,8 milhões, valor 108,3% maior que em igual período de 2009. A melhora nos preços do commodities lácteos em relação ao ano passado contribuiu para elevar o valor das importações, porém não foi atrativo o suficiente para ampliar as exportações, que caíram 27,23% em volume, nos primeiros sete meses do ano.

Não obstante as dificuldades enfrentadas na política externa, mesmo com o crescimento de 7% da demanda por produtos lácteos e a seca na região Centro-Sul do país, os preços aos produtores continuam caindo.


Nelton lamenta que a política macroeconômica, que mantém os juros elevados e distorce o câmbio, inviabiliza as exportações. O câmbio atual torna o custo de produção de leite brasileiro em dólar um dos mais altos do mundo, o que desestimula as exportações e torna atraente importar.
Adverte que “se o governo não atender às reivindicações do setor, o período de safra no Centro-Sul, que começa em outubro será ainda pior. Com o mercado inchado pela maior produção interna e importações, o produtor brasileiro ficará mais desestimulado a investir na atividade”.

QUOTAS


Lideranças dos produtores das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país estão reivindicando que o governo federal estabeleça cotas para o Uruguai, como ocorreu com a Argentina, também integrante do Mercosul. O leite uruguaio chega ao país custando aproximadamente R$ 0,63 o litro, contra um preço médio nacional de R$ 0,72. O vizinho tem a seu favor isenção de impostos, bons solos, clima e subsídio.
Nos próximos meses, com a entrada da safra, os preços, que já despencaram em média 9% na produção entre junho e julho, devem continuar em queda livre. “A concorrência com o Uruguai é predatória. Da mesma forma que há cotas para o frango brasileiro entrar no Uruguai, o governo deve limitar a entrada de leite uruguaio no Brasil, caso contrário as fazendas brasileiras poderão virar sucatas”,
A alta tributação vigente no Brasil prejudica os produtores nacionais, ampliando a desvantagem competitiva em relação ao Uruguai. No Brasil, os pecuaristas de leite pagam 9,25% de Programa de Integração Social (PIS) e Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) em insumos como ração e sal mineral. Estes itens representam cerca de 40% do custo operacional total da produção.
Goiás, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais defendem a adoção, pelo governo, de licenças não automáticas de importação, para restringir a entrada de produto de outros países, em especial do Uruguai. “Não queremos protecionismo ao nosso mercado, mas também não queremos sofrer com a concorrência predatória de outros países”, avalia Nelton.
 
Fonte: Só Noticias

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